Luto do homem: como podemos entender a dor pelo relato de um pai que perdeu sua filha

Quando se fala de luto pela perda gestacional e neonatal, a reação hegemônica – a que todo mundo tem o ímpeto de fazer, sem nem pensar – é a de olhar pra mãe.

É ela quem perdeu um bebê. Se ainda na barriga, ou após um parto complicado, a atenção é quase que sempre e inexoravelmente para aquela que cuidou de uma vida em seu ventre por meses. Duas vidas em um só corpo. A fusão é natural na cabeça das pessoas. Perder uma criança no momento em que se espera ganhá-la é uma dor sem tamanho, uma dor sem nome. A dor de uma mãe que perde seu filho ou sua filha é mesmo inominável. Toda essa construção é justa e toda mulher precisa mesmo de um amparo grande no momento da dor e do luto. 

Mas essa é uma dor com dois lados.

O pai, por outro lado, costuma ficar esquecido. No seu canto, não é visto, nem como pai, nem como alguém que perdeu. Para si, absorve a cobrança de estar do lado de quem sofreu a perda, a mulher; de se prostrar a seu ombro e a seu serviço. Pega pra si o dever de ser o repositório de forças para a companheira. “Eu preciso estar do lado dela”, “eu preciso dar forças”, “eu preciso cuidar da minha esposa”. É ela quem está triste, perdida, desesperada. É ela quem teve a maternidade roubada por uma rasteira da vida.

A ele sobra o dever de ser o alicerce perdido, a sustentação do cuidado. Restam as tarefas, das mais cotidianas às mais perturbadora. É ele quem geralmente tem que resolver as burocracias, tem que lidar com enterro e cartório, que recebe os parabéns quando vai fazer a certidão de nascimento porque sem ela, afinal, não se pode ter a de óbito.

É ele quem filtra.

Um muro dado às intempéries de um luto não reconhecido recebe de tudo: tempestades, pedras, ventanias, corrosões. Um muro pode apodrecer e cair se ninguém cuida dele. Eu sei, porque aconteceu comigo.

“Você deve ser forte por ela” 

Como uma montanha: forte, dura e de difícil acesso.

De longe esta é a frase que mais ouvi depois que minha filha Joana morreu aos 6 dias de vida na CTI de um hospital particular na cidade do Rio de Janeiro. Depois de uma complicação no parto, os batimentos cardíacos da Joana pararam. Fizeram então uma manobra para retirá-la as pressas. Ela saiu azul e mole. O choro que todo pai espera escutar como a fundação de sua paternidade, eu nunca ouvi. Colocaram ela numa unidade intensiva ali mesmo no quarto enquanto tentavam reanimá-la. A entubaram e fizeram massagem cardíaca. Eu, de trás, dividia meu olhar preocupado entre uma médica com movimentos frenéticos em cima da Joana, fazendo sinal negativo com a cabeça enquanto umas 30 pessoas se empurravam naquele espaço não tão grande e a minha esposa, nua e ensanguentada, em um estado de torpor meio que sem ter, naquele momento, uma real noção do que estava acontecendo, sendo limpa e costurada por uma equipe de médicas, todas desoladas.

Quem viu isso tudo fui eu. Essas imagens vão ficar pra sempre na minha cabeça. Essas foram as minhas experiências, só minhas, de mais ninguém. Eu ali, comigo, tendo que lidar com o imponderável, sozinho. Mas, de uma forma geral, eu tenho um dever que é muito meu: ser forte por ela. De alguma forma, que ninguém consegue saber, deixar tudo de lado e cumprir a função de preservá-la e cuidá-la. “Você precisa ser forte por ela”.

Como enxergar a dor de quem, pro resto do mundo, não perdeu? Se não há o que perder, não há perda. É assim que o pai se isola em sua dor. Porque a ela está ali, dentro dele, acredite. Mas o que acontece, na maioria das vezes, é que nem mesmo o próprio pai a consegue ver. Ninguém vê. A família está toda para a mãe. Para ele só cabe a pergunta: “E aí, como ela está?”. É, ainda hoje, uma pergunta que ouço corriqueiramente, e que machuca muito.

Porque, para uma sociedade que não vê também a perda do homem, não importa muito como ele está. A não ser que seja pela mãe.

Durante a gravidez, numa pequena discussão com minha esposa, me confidenciei com uma pessoa amiga. A resposta foi a de que o centro de tudo era ela; e de que eu deveria me calar e só abrir a boca depois do parto. Some a isto várias outras situações durante a gestação que acabam introjetando no homem a ideia de que ele ainda não é pai e que só será após a vinda do bebê e fica fácil de entender o quão solitário é pro homem ter que lidar com o próprio luto após a perda. Porque ele será pai só depois, mas esse depois não chegou.

É numa situação como esta, que fica bem claro, o quanto o machismo também afeta profundamente o homem. O quanto essa sociedade o cobra por uma performance específica de masculinidade que, em muitos casos, o impediu por toda a vida a entrar em contato consigo mesmo, com seus sentimentos, que ditou a ele que ele deve ser forte e que uma das únicas formas de expressão afetiva e emotiva é através da raiva e da agressividade.

É uma dor invisível. Ninguém o vê. Ninguém enxerga a sua dor. Pense num cara que, de repente, quando acha que terá o momento mais feliz de sua vida, o momento em que lhe prometeram que ele viraria outro alguém, é obrigado a lidar com o pior. Se vê na responsabilidade de cuidar sem ser cuidado, nem por si mesmo. Quando a morte se interpõe no caminho idealizado do(a) filho(a), sem saber como lidar, porque nunca aprendeu, esse homem muitas vezes se cala, veste a personagem de fortaleza e segue sua vida sem atentar pro que acontece com ele mesmo.

Mas lá na frente ele estoura 

Só que estoura com raiva, o único sentimento permitido durante anos. Daí pra frente, dá pra imaginar o que fica no horizonte deste pai. Não é visto e nem vê, e sofre repreensão quando sua dor transborda (“Você deve estar forte por ela”, “Deixa disso, vamos beber que você acaba esquecendo”, “Para com isso, logo mais vocês engravidam de novo”).

Na crueldade do tempo que passa (e passa, e passa…), só encontra sua dor quando já há uma cobrança pela superação. A mulher mal se levanta, a família já cobra a andança, os amigos já estão certos de que tudo passou. E ele ali, ainda com sua dor. Sozinho. “Homem não chora” é o que ele ouviu por toda a vida.

É preciso dar visibilidade à dor masculina e paterna 

Tem um caminho bom para chegar lá

O homem também tem uma perda nesse processo. Perde o que não chegou a ter. Uma promessa, um desejo, um futuro. Ele perde muita coisa. Tanto quanto a mulher, porque não é uma competição de sofrimentos.

É o luto, próprio de cada um, expresso de uma forma única porque toda pessoa também é única. Eu cheguei a invejar minha esposa por ela ter tido o privilégio de ter carregado e sentido e se comunicado com a Joana por 9 meses. Mas ser mãe nunca será a mesma coisa que ser pai, e vice-versa. Há que se ter, de toda a sociedade, de toda a rede de apoio, de todos e todas ao redor deste casal, a compreensão de que por mais “durango kid” que seja o homem, por mais maiúsculo que seja o H dele, ele está em sofrimento também.

Mesmo que ele mesmo não o enxergue.

Os dois sofrem, de formas singulares. Cada ser é um ser. Singularidade é uma palavra linda. É preciso abraçar a dor do homem. Dar a ela a visibilidade que ela merece. Acolher este pai interrompido. Respeitar o seu tempo, só seu. Mas dar-lhe compreensão e suporte, que tanto lhe faltam. É preciso dizer a ele que ele é e sempre será pai. É preciso fazê-lo entender que sua dor tem um lugar pra se expressar, que ele pode senti-la, que ele pode ser amparado. Que seu luto é visto e reconhecido. Que sua paternidade, mesmo com a distância imposta pela morte, existe e é válida. Existe. Minha filha existe. Ela pode não viver. Mas ela existe. E assim, minha paternidade ganha também uma existência. Eu sou pai de uma filha que não está aqui. Porque a paternidade não tem fim. Nem a morte é capaz de dar cabo dela. É uma condição irrevogável.

Sou pai porque amo. Amo minha filha num amor que supera a vida e a morte. Hoje olho pra trás e consigo enxergar além da tristeza, que está e estará lá pro resto dos meus dias. Mas vejo que há obstáculos. Uma regra silenciosa que me diz como ser homem até na hora de sofrer. Uma incompreensão que se recusa a lidar com o tabu da morte. Há a solidão do homem que muitas vezes não tem ninguém ao seu lado, há a dor que será agora companheira por toda a vida. Por outro lado, há um novo mundo surgindo. Há novas formas de se exercer as nossas masculinidades.

Hoje, minhas fraquezas são o que me fazem forte. Minha sensibilidade é exposta a quem quiser ver (ou ler…). Há uma rede de homens e mulheres se apoiando e se repensando. Há iniciativas que buscam lidar com o luto de forma aberta. Uma das maneiras que achei pra ressignificar minha experiência de luto foi construir o SOMOS – Apoio ao luto, um projeto de rodas de conversas para homens enlutados. Há maneiras de não estar sozinho, de se respeitar o sofrimento que está lá. Mas mesmo que esse homem não veja, acolha-o, abrace-o, compreenda-o, legitime-o. Você está falando com um pai, alguém que ama para além de tudo.

O que faz de alguém um pai? Me disseram que eu me tornaria pai quando a tivesse nos braços. Só a consegui segurá-la já sem vida, na minha despedida. Não foi este o momento em que me tornei pai. Foi antes, quando no CTI eu passei a rezar muito pedindo pra toda e qualquer forma de divindade pra me trazer a minha filha de volta, não importasse a condição. Num desses momentos, minha esposa comigo ao lado, Joana cheia de tubos e conexões, dentro de um cubículo sem se mexer, minha esposa pegou na mão dela e ao contrário das expectativas sua mão fechou parcialmente no dedo grande da mãe. Eu olhei pra tudo aquilo e foi como uma explosão de entendimento ainda inexplicável: parei imediatamente de pedir por mim, passei a pedir por ela. Pedia que houvesse o que houvesse, que acontecesse o que fosse melhor para minha filha. Que não importava o que eu e a mãe sentiríamos, mas que importava acima de qualquer coisa o que era melhor pra Joana. Um dia depois ela se foi.

O que faz um pai ser um pai é quando a gente entende que o amor pelo filho supera qualquer outra coisa nesse mundo. Aprendi isso com minha filha.

Eu sou pai. Me tornei pai na existência de Joana. No amor por ela.

O amor me faz ser quem sou hoje. “Eu te vejo, pai”. Passei a ouvir isso com mais frequência e de várias formas diferentes. Hoje não permito me negarem a minha paternidade, porque a vida e a existência da minha filha não se resumem aos seus últimos momentos. Joana foi concebida muito antes da sua concepção. E a existência dela me transformou definitivamente.

Esbarrei depois de uns meses com uma frase que li no livro de Viktor Frankl com o sugestivo título “Em busca de sentido”: “O amor é tão forte quanto a morte”. Hoje, com a minha dor e minha paternidade, eu digo: “Talvez até mais”.

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